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18/04/2012

Verdade ilícita - pt. 10








O tempo às vezes para aqui, em mim. E eu não sei mais o que ocorre no mundo. O que ocorre comigo. As batidas, as feridas, a vermelhidão em meus braços, a palidez nos meus seios. A nostalgia me atinge... Há quanto tempo estou aqui mesmo? 
 Eu quero chorar, meus olhos estão vidrados, paralisados. Eu quero morrer. Mas aí, tem Fil me chamando, Fil me amando, Fil me acordando, Fil me beijando, Fil sorrindo, Fil querendo me matar...
 Braços agarram minha cintura. Eu estremeço com a quentura que a tanto tempo não sinto.
 Água. Água em mim, no ar, em meus pulmões, em meu rosto, naquele rosto lindo que me encara os olhos.
- E, então, seu bem mais precioso está morrendo e te matando junto... e eu também. - eu conheço essa voz... - Sally, há quanto tempo você se encontra aqui? E... eu não entendo. Como você não morreu? Você não virou uma mortal? - Filiphi.
- O que você faz aqui? - Pergunto, tentando me erguer, mas a cabeça doía.
- Vim te resgatar. Vim me resgatar. - ele suspira forte e seus dedos deslizam sobre minha sombrancelha. E aquela vontade de o abraçar aumenta. E, então penso no que ele disse...
- Como assim meu bem mais precioso está morrendo? - ele deita ao meu lado, escuto as ondas baterem perto de nossos pés. 
- Aquele tal de Júnior. - ele diz e se cala, segura minha mão e a coloca em seu peito, eu sinto novamente sua quentura e seu coração bater. Meu Deus, eu ainda o amo. - Eu senti sua falta.
- Precisamos correr. - digo. - Isso já ocorreu uma vez há um tempo, com outra pessoa, eu completei a cota de sonhos com ela, mas quando ela se desvaneceu, me enfraqueceu. E, não sei como reagir ao Júnior, porque ele não é um simples sonho, você sabe bem disso. Preciso... - não completo, os lábios dele estão nos meus, seguros, firmes e adentram-me. Eu sinto fome, fome dele. 
- Para. E fica comigo. Vive comigo. Faz o que tem que ser feito, mas... comigo. 
- Fil, as coisas não são assim. você sabe muito bem, toda vez que nos damos uma chance, você tenta me matar uma hora ou outra, e isso me machuca. A respeito disso, precisamos conversar. Mas como disse, precisamos correr, caso queira também sobreviver. - dizendo isso, ele me pega nos braços e vamos até seu carro. E eu penso que irá ser uma viagem silenciosa e cheia de tensão. Sinto seu cheiro e me agarro nisso. Não sei o que pode me acontecer a partir de agora.




(continua...)

12/10/2011

Verdade ilícita - pt. 9

( Para ler as partes anteriores é só clicar no marcador aqui ao lado)

 Filiphi estava deitado de bruços, balbuciava algo ininteligível. Eu observava seu sono, parecia agitado com algo.
 Então ele acordou.
 E atacou minha garganta, suas unhas eram fortes e afundaram em minha pele.
 Primeiro o pânico, depois a surpresa.
 Isso sempre costumava acontecer, era como se o sonho o impusesse a isso.
 Relaxei, ele não conseguiria me matar.
- Fil, seu...idiota. - consegui dizer. E essa foi uma das muitas tentativas de me matar.

 Ah, Sally, volte a surpefície e faça o que nunca fez. Pergunte. Pergunte a ele.

*Filiphi

 Mais uma vítima.
 Eu.

- Ei, você não é o Júnior? - pergunto, encarando alguém magro por alguma doença, mas os olhos persistiam em me lembrar Sally.
- Talvez, depende do que... - silencia, encarando-me. Eu podia sentir o medo emanar de seu corpo.
- Você. - sussurra.
- Sim. Eu. Então, você é o Júnior? - pergunto outra vez.
- S-s-sim. - o pomo-de-adão subia e descia nervosamente na sua garganta.
- Você tem visto Sally?
- É-é claro que não, depois daquela noite nunca mais a vi.
 Perda de tempo.
- Faz uma semana que procuro por ela. E eu sei que ela está mal...fisicamente. Isso me afeta também de alguma forma. Mesmo que eu me alimente, ainda sinto algo faltar. Talvez seja ela que me falte.
- Você é louco... - aperto sua garganta.
- Apenas Sally pode me chamar assim. - aperto com mais força e sem entender parei de respirar, o coração parou de bater.
- Você... que droga. Você é um dos sonhos mais fortes dela. Você a mantém viva. 
- Cara, você é... você tem algo errado.
 Pouco me importava. Eu só queria saber de Sally.
 Somente Sally.
 Você tem que matá-la.




- Faz tempo que não passo por esse blog, mas sabe, é mais porque estou sem inspiração para continuar essa história ou iniciar outras. Beijos e queijos pra todos. Até.

29/08/2011

Verdade ilícita - pt. 8



(Para ler as outas partes, clique ao lado no marcador "verdade ilícita.")


- Você foi meu sonho impossível, minha verdade ilícita e acabou. 
 Fim, ele voltou para sua história e eu para minha... 
 Seria esquisito dizer que ele me beijou ou eu me declarei? Não. Porque foi isso o que aconteceu.


 Júnior puxou-me para um abraço e sussurrou :
- Talvez você tivesse razão. 
 Eu queria poder dizer "que bom." Mas minha garganta ardia, eu estava viva outra vez, outra vez uma mortal. Eu beijei seus lábios,me deliciei com seu aroma por aquele momento. Ele não me repeliu, não perguntou, ele retribuiu.
- Júnior, eu queria poder dizer que te amo, mas não posso. - ...e desta vez foi o fim.


- Fil, não me siga. Não tente me roubar sonhos ou destruir.
- Você...você está mortal outra vez. - Tudo bem, mas não estava nada bem. Me agarrei na barra do casaco, esperando ele ir. - Eu já falei o quanto você está linda? - lábios tocaram minha face e se foram.


 Eu queria poder dizer que envelheci um, dois ou mais anos, mas após quatro anos continuo a mesma. Não sei sobre Júnior. Filiphi some e aparece de vez em quando, sempre temos nossos encontros desencontrados, se é que me entende. Não voltei a ser zumbi ou a temer me cortar para curar feridas dos sonhos. Não voltei ao hospital ou ao meu apartamento. Nem sei como tudo está hoje, eu estou longe agora de tudo. De todos.
 E o fundo do mar me aplaude, querendo que eu morra, mas continuo aqui, sem respirar e mesmo assim sem conseguir morrer. Mortal ainda, sim, eu ainda sou uma mortal, mas não sei mais o que sou agora.
"Será como o casamento dos nossos pais, para sempre." 
Filiphi. Filiphi. Eu acho que ainda amo você...




Filiphi


  Ser um vampiro seria minha opção se ela não fosse mais mortal. Mas agora, eu imortal...e ela? O que ela é?
 Talvez seja o frio que me impeça.


 Ela estava deitada sob o sol, rindo e eu ria também. Isso foi a séculos atrás. Quando óculos ainda não era moda, quando biquíni ainda não tinha nome.
 Eu percebia o sol se lambuzar dela e eu sentia ciúme. Só que ela ria, e eu ria também.
- Você é louco ou se faz?


...Me impeça do quê? De matá-la?
 Eu tenho que matá-la.
 ...
 Eu amo ela.
- Você tem que matá-la. - a voz congelante do vento sussurra, e eu tenho a impressão de já conhecê-la.


(continua)

20/08/2011

Verdade ilícita - pt. 7


( Para ver as partes anteriores, só clicar ao lado na tag verdade ilícita)

- É engraçado como as coisas são. Eu vejo a energia que flui do Júnior a Evyline, por que ele não percebe? Mesmo que a orientação sexual dela esteja confusa, ela sente algo dele muito forte e isso a estremece.
- Quando você estiver raciocinando algo, deveria falar um pouco mais baixo. - Filiphi sussurra, fazendo uma onda de arrepio descer até os dedos dos pés.
- O que você faz aqui? - pergunto, eu ainda estava com meu uniforme, não havia me trocado ou tirado aquela blusa manchada, meu cabelo estava preso em um coque, mas ainda assim sentia calor.
- Observando. - diz, como se isso fosse natural. Ele ali. Arregala os olhos. - Não você, ele. - mas eu não descanso meu olhar, estreito os olhos e volto minha atenção a cena que se passa na cozinha de Júnior.
- Ele não consegue ver.
- Sua blusa. Ela ainda está manchada. De...café.
- É sangue. - eu digo, tentando parar de me distrair com a voz de Filiphi,quando estou prestes a ir a porta da casa de Júnior e adentrar seu espaço, Filiphi me puxa e pressiona seus lábios aos meus, eu sinto seu hálito quente entre meus lábios. O empurro e por um segundo fico zonza.
- Mas esse sangue é seu! Consigo senti-lo. 
- Você é louco ou se faz? - Sinto que meu rosto está vermelho e só fica assim após a barba por fazer de Fil encostar em meu rosto.
- Eu estava sentindo você, e além do mais, você retribuiu...quase. Força de vontade ou...? - não saberia respondê-lo, pois nesse momento, eu vejo pela janela entre panelas encostadas no vidro, eles se beijando e eu sabia, sabia que ele chegara ao êxtase, pois eu me sentia mais viva.
- Acho que minha missão acabou aqui. - engulo a seco, talvez eu queria que terminasse comigo aquela história, que tomasse outro rumo. Logo eu que abomino o destino, tenho que fazê-lo existir dessa maneira.
- Acho que não. - Fil diz, mas não sabe como eu estou me sentindo, não sabe a sensação de bom e o do ruim que se mistura dentro de mim.
- Eu acho que sim, tudo tomou seu rumo.
- Sally, você o ama não é? - eu sei que, mesmo sem olhar para ele, seus olhos estão escuros, como sempre ficam quando ele está preocupado, irritado ou curioso.
- Eu amei você Fil, independentemente do que você fez ou do que é agora, mas ele é diferente, ele tem um som de liberdade, um desejo a mais...
- Mas você não o ama. - conclui. Eu já estava cansada do destino e decidi bater a porta. 


- Deve ser a...pizza. - Júnior diz e vejo um lampejo de desprezo passar por seus olhos, pois Fil ainda estava lá, comigo.
- Preciso falar com você. - digo a Júnior.-  Sem você. - digo a Fil. Ele levanta as mãos como se se entregasse e sai.
- Evyline, volto já...




continua...

21/06/2011

Verdade ilícita - pt. 6


  ♦ Filiphi

Sally estava com seu uniforme manchado de café, mesmo que naquela hora que eu a encarei estivesse bebendo um chá...ou aquilo seria sangue? Ela me pergunta por quanto tempo agirei assim,respondo.
- Eu não sei Sally, eu não sei. - e aqueles olhos me encaram, suspiro forte. - Você continua linda. - falo. E uma nostalgia nos atinge, eu sei bem isso, pois vejo o desfoco nos olhos dela. Cenas e mais cenas se passam, séculos, anos. 
 Alguém entra na sala e rapidamente saio.
 Não, eu não sou bom, não tenho paciência ou afeição, minhas vítimas me encaram como um cachorrinho abandonado, mas eu não sinto pena ou agonia por eles, eu apenas faço o que tem que ser feito. Eu morreria se fosse por mim, mas eu também a mataria, e pensar nisso dói. Só ela me dói tanto assim.
 Os anos passaram-se, me tornei cruel, frio e masoquista na maioria das vezes, sempre que eu ia atrás de Sally, o mundo parecia um lugar melhor.
Fim do século XX, estamos nos arrumando para uma festa, de não sei bem o que, parecia ser da sua formatura...mais uma vez. Ela me olhava, sorrindo, deixando suas bochechas coradas, o mundo parecia rodar e se perder por um instante. E tudo para, ela, o tempo, menos eu...
- Você sabe o que fazer. - alguém sussurra em meu ouvido e tudo volta, a respiração dela agitada, o falatório, as roupas escuras e uma mancha de sangue no chão...
- Pare, Fil. - ela sussurra baixo para que ninguém escute, seu dedos da mão estão ficando cada vez mais roxo, o aperto do meu braço no seu pulso, pareceu quebrar algum osso, ainda caia sangue e aquele cheiro de tempos em tempos me enfeitiçavam. - Pare. - ela repete, meu olhar está grudado em seu pulso e então...ela me empurra. 
- Vá embora e nunca mais apareça. - ela diz e conclui com um chute em minha canela. Seu salto alto vermelho se contrastando com aquelas roupas pesadas. Ela. 
- Que estúpido eu sou. - digo. - Irei procurar esse tal Júnior...

15/06/2011

Sinopse - Verdade ilícita

Depois de verificar alguns comentários anteriores, reli o conto e pude ver que pessoas podem se perder nele, então decidi deixar a sinopse aqui, lembrando que ele ainda não tem um fim, ainda não decidi, por isso, vai ficar um pouco vago.

 Século XVIII , final de inverno, um acidente acontece. Álcool, jovens, uma bela dama. Vindo de uma despedida, um casamento estava preparado para o dia seguinte. Então, um tiro. A bela dama, Sally, é morta por um tiro de espingarda, deixando Filiphi perturbado, não aceitando a morte da amada, procura meios de trazê-la de volta...
 Ele consegue, morre nesse processo, mas vive outra vez, os dois juntos, mortos-vivos, podiam dormir, comer,beber, viver uma vida, mas não sabiam que seriam imortais e que teriam que fazer algo por a existência deles, pois somente comida não os faziam durar. Passou dois séculos, nesse tempo, Sally separou-se de Filiphi, construindo uma vida diferente, ele pensamento negativo, ela lívida, pensando positivo. E claro, de tempos em tempos ele aparecia para ela, despertando aquela velha chama que tinham quando noivos. E em pleno século XXI ela se apaixona, por um cara que sabe que existe alma gêmea, não sendo ela, luta com todas as forças contra esse sentimento, mas Filiphi aparece outra vez, bagunçando a vida dela, bagunçando os segredos dela. Ela tem muito que explicar e muitos sonhos a realizar.
 Com quem ela fica? O cara que não sabe, mas a alma gêmea está próxima e não é Sally, ou o seu amado de séculos. Tudo por essa verdade um tanto...ilícita.

19/05/2011

Verdade ilícita - pt. 5

 Filiphi segurava um buquê e pedia minha mão para meu pai. Meu rosto ardia, estava escondida atrás da porta, escutando.
- Seremos felizes, Sr Hastings. - ele prometera a meu pai.


- Cada um por si! Essa é a política de relacionamentos para você Tamires? - perguntei para minha colega de turno no hospital.
- Sally, você tem que aprender que em um relacionamento hoje em dia não é mais mil flores como antigamente. - disse ela, enquanto andávamos na ala dos nossos pacientes.
- Quais os seus hoje? - pergunto.
- 20, 17, 32 e 41. Poucos, talvez não haja emergências hoje, o dia está lindo.
- É o que eu espero. - falei e segui o corredor. Naquele dia colhi vários sonhos, esperanças e forças, me fortaleci o quanto eu esperava, vendo várias pessoas melhorarem seus estados críticos.
 Então, em um momento de descanso, vejo um vulto passar por mim, alguém conhecido, perfume amadeirado, fresco e novo. Ele novamente.
- Fil, por quanto tempo você agirá assim comigo? - eu pergunto, tomando um chá sem gosto.
- Eu não sei Sally, eu não sei. - ele suspira forte, mesmo que não dependa daquilo e me encara, enquanto beberico o resto do chá. - Você continua linda. - diz e levemente passa seus dedos em meu queixo. Aquela sensação de sua pele na minha faz com que eu volte ao passado novamente.
Fil está sentado na cadeira de balanço do velho papai, encarando o céu azulado e de vez em quando olhando para mim, às vezes seus olhos descem um pouco até minhas coxas. E meu rosto arde e reviro os olhos, observando-o enquanto ele não olha pra mim, mas então nossos olhares se chocam e aquele arrepio me percorre a espinha, me impulsionando para frente, para agarrar aquele seu cabelo curto com pontas irregulares e beijar os lábios que parecem queimar. 


- O que você está pensando? - Tamires me cutuca o braço e percebo que estou só novamente, sem Fil, sem pensamentos, sem dor, somente uma lembrança de alguém, de algo que deixei mal resolvido na noite anterior. O que, quem?
Júnior...

(continua)



17/03/2011

Verdade ilícita - pt. 4

(Para entender, leia as partes anteriores, é só clicar no marcador verdade ilicíta)

...
- Olha, você e eu precisamos descansar, amanhã continuamos isso. - ele beija levemente minha testa e sai Continuo ali parada, sem entendê-lo. Me encaro no espelho, pareço mais bela a cada dia. Deito e durmo, mas é uma noite sem sonhos alheios.

- O que você fez? - pergunto.
- Eu pensei que iria destruir a vida dele, mas só criei mais esperanças. - dizia Filiphi, enquanto eu penteava os cabelos. Sorri e o encarei. Eu amei aquele cara e não conseguia odiá-lo, nenhum pouco, apesar de sua maldade.
-  O que você quer? Competir comigo? - solto a escova e passo os dedos sobre os fios.
- Seria uma boa ideia, não? Mas com você é impossível.- ele solta um suspiro e me abraça levemente. - Mas se eu destruir ele, eu destruo você. E eu não quero isso. concluiu.
- Não quer morrer? - perguntei, me soltado do abraço.
- Não, não é isso Sally. É que, eu não suportaria perdê-la. - diz. E aquelas palavras me tomam de surpresa. Filiphi podia ser um vampiro, zumbi, vivo-morto, se alimentar de vidas, mas ainda era apaixonado por mim, isso ninguém poderia duvidar. Nem eu. Sorri.
- Por que escolheu isto Fil? Você poderia ter tido uma vida normal. - falei, encaminhando-me a porta.
- E perder a diversão? Nunca. - disse beijando minha bochecha. - Bom dia. - seu sussurro ficou no ar enquanto ele sumia.
Que...idiota.
(continua)



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02/03/2011

Verdade ilícita - pt. 3

Para entender, leia antes a Parte 1 e Parte 2 .

 ... - falei calmamente, esperando ele digerir as palavras.
 - Prossiga. - falou friamente. Ajeitei o cabelo que tomava boa parte do meu rosto.
 - Bem, Filiphi e eu éramos noivos antes de eu morrer, mas ele fez a burrice de querer que eu voltasse. E aconteceu isso. Sou uma morta-viva, mas já fui fantasma...e viva até alguns minutos atrás. Eu não sei o que sou, mas eu poderia ser vampira. Acredita nisso? Bom, mas eu escolhi outra coisa. - sorri após falar. Não precisava respirar, mas a voz ficava cada vez mais rouca.
 - Qual a outra coisa? - ele ainda continuava frio.
 - Sonhos. Eu planto e colho sonhos. Os faço ser possíveis tanto enquanto dorme, como assim, na real. Eu os faço ser reais, mas eu destrui seus sonhos...cada um.
 - Por isso agora é uma zumbi, morta-viva... o que seja. Ele queria matar você, era isso? - perguntou, desviando os olhos.
 - Não. Ele não pode me matar literalmente. Porque se eu morrer, ele morre. Minha vida - abri e fechei aspas no ar - está nas mãos dele. Ele só quer que eu seja como ele. Destruidora de vidas.
 - Você destruiu a minha. - concluiu, ainda sem me olhar. Um fio gelado percorreu minha nuca. Lágrimas se aninhavam em sua bochecha visível. Eu queria poder chorar novamente, disse para mim mesma.
 - Eu sei. - percebi que tinha falado alto demais. - Me perdoa Júnior. - meu coração deu um pulo e parou bruscamente.
 - Acho que você não entende a gravidade de destruir. - flutuei para perto dele, enxugando suas lágrimas. Concentrei-me em seus olhos, eu vi a dor. Ele puxou minhas mãos e as colocou ao lado do meu corpo.
 - Você não entende Júnior. O seu sonho é impossível. Eu não posso ser o seu sonho. - encarei aquelas esmeraldas. Ele tocou em meu rosto, desenhando seu formato com o dedo indicador, só sentia um leve roçar, novamente eu queria poder chorar.
 - Você ainda está quente.
 - Tecnicamente estou morta só à dez minutos. - um sorriso triste preenche o rosto dele, só nele aquelas covinhas eram absurdamente lindas.
 - Eu amo você. Em cada partícula do meu ser, em cada célula eu tenho a certeza. Eu amo você. Elas tentam gritar, mas sua face já diz um não, sem nem perceber. Por quê?!
 - Não é culpa minha Júnior. Eu simplesmente não posso ficar com você.
 - Por que? Me diz. - ele diz incisivamente, formando outras lágrimas.
 - Eu não sou sua alma gêmea. Sua alma gêmea anda tão próxima de você. Você tem que olhar para os lados de vez em quando. - esboço um sorriso. Ele revira os olhos, enxugando o rosto e sorrindo pra mim. Retira sua mão do meu rosto e mexe no cabelo.
 - É isso? Por isso? - olho para ele e seu sorriso se torna maior. Meu coração começa a fluir sangue. Confusa, pergunto.
 - O que você acha que seria?
 - Sua bobinha. - ele segura meu ombro e me encara. - Isso quer dizer que você me ama. - Respiro aliviada por poder chorar. Lágrimas banham meu rosto. - A próposito, quem é minha alma gêmea?
 - A amiga da sua irmã, Evyline. - ele olha para mim com um misto de confusão no rosto, antes de rir freneticamente.
 - Não pode ser. Ela é lésbica. - ele diz em meio a gargalhadas.
 - Não importa o que ela seja, a alma dela é sua, isso não tem graça.


26/01/2011

Verdade ilícita - pt. 2

 - Me desliguei do corpo. Aquelas palavras me desequilibraram. Ele podia me matar ali, tecnicamente falando. Senti suas mãos deslizarem, seduzindo-me. Seus lábios frios tocaram meu pescoço. Eu senti seus caninos entre eles. Estremeci de desejo e medo. Continuou com o roçar dos lábios em mim, soltei um gemido quando um dente me arranhou.
 Suas mãos apertaram-me mais contra ele. Como eu sairia daquilo? Eu estava fraca. Destruir vez após vez os sonhos de Júnior me machucava.
- Pode parar? - pedi, entre alguns ofegos.Ele parou com os lábios, me virou para ele. Senti seus olhos arderem. Então ele me beijou. Um beijo doce e rude. Meu coração acelerou. Retribui, senti meu sangue fluindo nas veias, puxei seu cabelo curto e deixei que me tateasse. Meu coração bateu mais forte e...parou. Me desvencilhei dos braços de Filiphi, lágrimas já caiam. Mais sonhos perdidos. Quantos? Respirar já não era mais preciso. Pararam de escorrer lágrimas. Novamente eu era uma zumbi.
 - Você não consegue muito no seu ramo. É melhor eu ir. - e desapareceu, mas antes pude ver seus olhos sofridos de desejo. 
 Júnior estava na porta do quarto e cada olhar parava meus órgãos. Eu sentia o medo disparado contra mim. Meus olhos estavam carmim e eu queria poder chorar.
 - Não vai falar nada? - minha voz saiu rouca. Como de uma morta. Eu vi o sobressalto no semblante de Júnior.
 - Você que tem que me explicar. Como eu vim parar aqui? Quem era aquele cara que você estava com agarração? E...você está doente? Parece pálida. - ele falou de uma maneira simples, mas o que ele não sabia era que minha aparência era reflexo dos sentimentos dele.
 - É uma longa história. Quer mesmo saber?
 - Sim. - respondeu, rápido demais.
 - Aquele cara, Filiphi. Foi ele que trouxe você aqui, pelo que parece. Não estou doente, estou morta.
(continua)

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16/01/2011

Verdade ilícita - pt. 1

 - Por que você não me deixa em paz? - gritei para Júnior. Ele segurava a porta do elevador e me olhava de um jeito lacônico.
 - Você sabe porquê. Já estou cansado disso também... Posso subir com você? - fiquei tentada a aceitar, virei meu rosto. Aqueles olhos verdes não podiam me comover. Não agora.
 - Não. - respondi secamente sem olhá-lo.
 -Boa noite Sally. - ele solta o elevador e o ar me compressa. Sinto o aperto no peito. Aperto o botão 10. Estava cansada, cansada da noite, do jantar, os saltos me incomodavam.
 O apartamento estava com cheiro de mel, respirei fundo e retirei os sapatos, afrouxei o nó em meu cabelo, meus olhos já pesavam. Não queria fazer nada.
 - Boa noite Sally. - despertei-me alerta. Filiphi olhava meu vestido aberto na fronte, enrolei-me no casaco.
 - O que você faz aqui? - a raiva subia minha cabeça
 - Desculpe. Como foi a noite? - disse com seu sorriso irônico. Aqueles olhos flamejaram desejo.
 - Acho melhor você ir embora. - falei, caminhando em direção a meu quarto.
 - Não entendo como pode estar cansada. Você está morta. - estremeci. O gelo na sua voz fez meu coração bater mais forte. Me voltei para ele e senti meus pés voarem, agarrei seu pescoço.
 - Já disse. É melhor você sair daqui. - ele desapareceu, levantando uma lufada de ar frio.
 Encaminhei-me novamente para o quarto. Retirei as roupas e encarei-me no espelho. Aquela pele, aquele rosto podia ser eu, fui eu...algum dia. 
 - Já disse como você é bonita? Ah! Já. Quando éramos noivos e viviamos juntos. - arrepiei-me.
 - Você não deveria está aqui, Filiphi.
 - Sally... É no sono que você consegue seu poder? O meu é diferente. Eu consigo poder destruindo vidas. - encarei seus olhos através do espelho.
 - Não é pelo sono. São pelos sonhos possíveis e impossíveis. Não sou você. - peguei a lingerie verde musgo que estava dependurada no abajur e me vesti, deslizando o tecido fino em meu corpo.
 - Que engraçado. Você constrói vidas e eu as destruo. - Ele ri de uma maneira que desperta instintos meus adormecidos.
 - Seu sangue também serve. - digo e repuxo um sorriso em meus lábios, fazendo aparecer as marcas finas que se aprofundam em minhas bochechas.
 - Meu sangue. Que tentação pra você. - seus braços envolvem minha cintura fazendo meus pêlos se eriçarem.
 - Não sou vampira. 
 - Eu sou. 

Nova estória, é, eu sei, tô adiando "Mais uma música", mas não esquentem, está próximo de sair a próxima parte, beijos e queijos pra todos.