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23/03/2012

Desire.



E por vezes eu curvei meu corpo para chegar ao teu. Me sinto quebrada em alguns lugares, a barriga dói por ter se contraído por tanto tempo, as costas ardem e meus lábios se encontram secos. Eu queria poder encontrar uma maneira de descobrir você novamente. 
 O sol que invade meu quarto, faz com que tudo que almejei seja reconsiderado... porque eu só queria você do lado. E então eu cheguei ao ponto de me perguntar se acaso eu fiz algo em prol do bem. 
 Meu bem, minha pele arde, conforme o vento seco entra pelas frestas da janela. E o que eu realmente queria é que toda dor corporal passasse, para que eu pudesse colocar meu sapato marrom desbotado e ir te procurar no bar da outra rua, porque eu sei que você está lá, tomando sua cerveja habitual de domingo. E se, caso toda essa dor passar, eu tomaria o copo da tua mão e derramaria no chão, quebraria a garrafa e agarraria teu pescoço e diria Você não necessita disso, você tem a mim. Mas então, ambos desistiríamos e eu acabaria bebendo com você.
 Mas, a pele que cola na colcha da cama, me lembra que apesar de todo sol, eu sinto frio. Eu tenho febre, fome e dor. E eu me pergunto se você virá mais tarde para deitar comigo e acarinhar meus cabelos, enquanto espero os remédios fazerem efeito.
 Mas só me resta te desejar e esperar o dia passar, para você vim.
 Talvez até traga uma taça de wisky para mim. Ou um copo da "gelada" costumeira.
 Oh! É melhor eu pegar mais alguns lençóis.

15/03/2012

My sucker


O mundo dá voltas, todos dizem, e eu aprendi isso inteiramente, cruamente, vivamente. As pessoas passam por nós, em toda nossa vida, de repente, como um fantasma, e em outro dia, aparecem de uma vez, de rompante, roubando cenas e pensamentos.
 E foi assim, dessa maneira, que me aconteceu. Pontapés no meio do caminho, lágrimas, era o que eu tinha, era o que eu era, uma eterna sonhadora, amante da vida e do silêncio. Aquela pessoa que te conquista só com um olhar, só da maneira que te faz rir, foi o que consegui em um aperto de mão em que minha pulseira deixou marcas.
 Eu fui feliz, alegre, tive apoio, coragem e consegui dizer o meu primeiro 'eu te amo'. Eu tinha alguém em quem podia confiar, eu tinha alguém que me ajudou a cicatrizar o coração, mas também ajudou a quebrá-lo. A gente sempre procura alguém em quem culpar, não? E foi o que eu fiz, culpei-o. Anos se passaram, provavelmente uns três, ele ainda permanecia do meu lado, me ajudando, me escutando, só que começou a exigir muito mais de mim e começou a me magoar.
 Eu era feliz com ele do lado. E tentei por tanto tempo relevar tudo aquilo que a presença física dele me causava. Dor. Raiva. Decepção. Eu tive um irmão, na verdade, um irmão que me protegia, mas que se tornou expert em mentiras. Se tornou o maior mentiroso que eu conheço até hoje. Cada dia se passava, eu me afastei, recuei, coração partido, tentando me consertar, foi nesses dois anos seguintes que me perdi pelo caminho.
 Eu tinha alguém em que eu podia me segurar, mas essa pessoa simplesmente me deixou ir. E se tornou tudo aquilo que jamais disse que seria. Era amor, um amor simples, sem ser de amantes, era amor verdadeiro, irmandade, e se perdeu...
 A gente aprende com essas passagens na vida, de pessoas especiais, de pessoas únicas. Que nos ensinam, nos fazem se tornar mais forte. Mas eu não sei se ele me deixou forte, porque às vezes, eu ainda choro a noite e eu não tenho mais ele do lado para me ouvir.
 Mas eu aprendi uma coisa, o mundo dá voltas e a gravidade tem sua vez no lado emocional também, tudo que sobe, desce/vai, volta. Eu tive minha cota, talvez ele tenha a dele, mas apesar de tudo, não guardo rancor no peito, e no dia que ele vier me procurar, ainda estarei aqui para escutá-lo.
 Meu idiota, imbecil, mentiroso, mas a pessoa que me ama, que me ensinou a amar e a acreditar em mim mesma.

29/02/2012

Desencana

As pálpebras pesavam, era como se a espera fosse se imortalizar, o buraco na parede da sala dava para ver o outro lado da rua. Os dentes estavam sem ser escovados há dias. As roupas espalhadas, o calor consumindo, cabelo sujo, peças de baixo amarradas em lugares inapropriados. Então alguém bate a porta, parecia até impossível, alguém, no meio da noite, precisamente às dez da noite, bater aquela porta amarela no meio de uma rua deserta. Kimberly se empertigou no sofá e percebeu que estava nua. Sua preguiça era tanta que seus passos demoraram a chegar até suas peças de roupa.
- JÁ VAI. - Kimberly grita, denunciado sua "vida". Dá uma espiada pelo olho mágico. Veste-se rapidamente e abre a porta.
- Já não era sem tempo. Kimberly, só vim deixar algumas cartas que chegaram por engano na minha casa, estão endereçadas com seu nome. E, hum, trouxe um pouco de pizza pra você, caso queira. - Keira, era sua vizinha *bitch* , Kim percebeu o olhar de desdém que ela dava ao perceber a bagunça que estava a casa dela. - Bom, era isso. É...tenha uma boa noite.
 No momento em que fechou a porta, pôs-se a tirar as roupas novamente. Comeu um pedaço de pizza, mas largou-o logo em seguida. Eca, é de calabresa. Cheirou as cartas e percebeu que elas foram coladas recentemente. Keira havia espiado suas correspondências.
 Kimberly olha no espelho e percebe olheiras enormes, lábios ressequidos e algumas espinhas surgindo em sua testa. Suspira e volta para o sofá.

 Passaram-se dias desde aquela noite fatídica. Hoje, Kimberly come uma pizza ( de mussarela ) e debruçada sob as cobertas de sua cama, com os dentes escovados, cabelos limpos e um novo corte, ensaia sua fala para a conversa de amanhã... Thimoty vem para a cidade.

 As cartas foram novamente enviadas. As respostas foram esperadas. Os ensaios foram feitos... Mas o roteiro não saiu como queria...
- Kim, eu não recebi nenhuma carta sua. E, além do mais, eu me mudei... como poderia eu ter te respondido? - Kim é pega de surpresa, enfia sua cara em uma máscara imaginária e trepensa uma maneira de reverter a situação.
- Ora, mas assim Thimoty, independente disso, você poderia ter me enviado alguma carta, não sei, talvez dizendo como ia a vida, pois sei bem que meu endereço ainda permanece na sua agenda. Que, inclusive, é esta em cima da mesa.
- Kim... eu estou noivo. Você entende isso? Nosso romance, se é que posso chamar disso, acabou no momento em que fui embora. - ele suspira, olha em volta e pega as mãos de Kim nas suas. - Eu quero que seja feliz e que... não que me esqueça completamente, mas que me apague um pouco dos teus dias. Você precisa disso. - dizendo isso, levanta-se, contorna a mesa, dá um beijo no alto da testa de Kim e se vai.
 Às vezes, ensaiar o diálogo, o desenrolar, o desfecho e tudo mais não é uma boa. Nunca é.

 Talvez dez anos haviam se passado. Kim estava presa naquela casa de porta amarela, com sua vizinha chata, com um emprego que era a única escapatória da realidade e um namorado fudido.
 Numa tarde dessas, na volta do horário do almoço do trabalho, Kim esbarra em ombros conhecidos.
- Thimoty. - olhos turvos e escuros pararam em seus dedos... sem nenhum anel.
-Kimberly. Como você...
- Ainda espero resposta. - Sai sozinho as palavras sem comando. Kim está com as mãos sobre os lábios, prendendo tudo, os olhos esbugalhados.
- Acho que tua vida tá muito melhor sem a minha. Além do mais, a gente ainda se encontra por aí de novo. Estou de volta. - Estou de volta. Estou de volta. Estou de volta.
- Thim, não tem mais aquele buraco na sala. Talvez eu termine com meu namorado stupid e, e, aaaah, eu não sei. Só sei que te quero ainda.
- Kim... a gente conversa depois sobre o nós. - O beijo estalado na boca, fez com que ela acordasse um pouco. Um pouco pra vida... Ali estava sua resposta.
 Talvez os acasos sejam bem melhores que os planos. Talvez o tempo seja bem melhor que a insistência implicante. Talvez o amor verdadeiro seja bem melhor que o fascínio temporário. Talvez a eterna espera, seja a única coisa que sobra numa vida perdida. Talvez não... é.

14/02/2012

Café amargo


 Pietra gostava de sentar na cafeteria próxima a sua casa, observar a movimentação na rua. De vez em quando suspirava forte, como se tivesse esperando alguém chegar de rompante. Alex gostava de observá-la do seu local de trabalho.
 Sempre bela, Pietra usava perfumes fortes e marcantes, mas não tirava os olhos da rua, muitas vezes não pedia nenhum café, apenas ficava sentada lá.
 Alex, teve ousadia da última vez e sentou ao lado dela, tentou conversar.
- Espera alguém, moça?
- Não. - respondeu curtamente. Os olhos castanhos quase mel de Alex a deixaram tonta por um minuto, depois seus olhos já estavam novamente na rua.
- Posso parecer meio evasivo, mas sempre a observo sentar aqui todos os dias e olhar para a rua, como se esperasse alguém. E acho que ainda espera. - ela olhou duramente para ele. Pensou demais, suspirou forte e baixou o olhar, pegou em seu colar, deslisando o dedo sobre ele.
- Ano passado, todas as manhãs eu costumava vim aqui com o Caio, tomávamos capuccino e saíamos na rua reparando nos detalhes. Até que em uma manhã, ele não apareceu, eu achei que estivesse atrasado, ou algo tivesse acontecido com ele. E isso foi acontecendo nos dias seguintes. E acho que a culpa veio em seus ombros e começou a me ligar que tinha acontecido algo e não podia ir. Até que um dia ele disse que estava doente, acho que era apenas mais um pretexto para não estar lá, aqui, quero dizer... sempre esqueço que permaneço aqui. Nos outros dias ele não me ligou, e eu também não liguei para ele, já estava cheia e a desconfiança ganhava lugar.
- Isso quer dizer que ele a deixou? - Alex, perguntou rapidamente. Ela o olhou duramente.
- Olha, caso queira mesmo saber se espero alguém, não me interrompa. - Pietra suspira, sentindo o vento frio bater em suas pernas. - Comecei a não vim mais aqui nos restos dos dias seguintes. Até que meu meu telefone tocou, e indicava seu número, eu estava pronta para desabafar toda a raiva quando alguém me deu a notícia. Caio havia morrido na noite anterior de pneumonia, eu não quis acreditar. Não mesmo. Não fui no seu enterro, muito menos sei onde fica seu túmulo.
- Desculpe. - Alex se recosta na cadeira ao lado de Pietra e ambos ficam calados por alguns minutos, até que Pietra fala.
- Sinto muita saudade, essa é a verdade. Caio era muito mais que meu namorado, era meu amigo. Eu ainda não acredito que o perdi, e se continuo a olhar a rua, se pareço esperar alguém toda manhã, acredite, é ele a quem espero. É com ele que quero tomar um capuccino.
- Me desculpe. - Alex repetiu.
- Não se desculpe, não é sua culpa. Nem tão pouco minha. Ele omitiu tudo aquilo por querer me poupar, agora entendo, mas... ele deveria ter falado, pelo menos eu estaria menos iludida.
- Você quer andar um pouco? - Pietra, olha novamente Alex de cima a baixo, deslisa novamente os dedos sobre o colar. Olha para rua, balança a cabeça e sorri.
- Claro, mas antes poderia me dizer qual o seu nome?

E de repente, tudo faz sentido.


Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
- Leminski.



Costumam dizer que tudo que é seu de verdade, volta.
Quando amamos tanto alguém que o tempo fez questão de levar para longe, deixando tudo um pouco borrado e percebemos que estamos apaixonados novamente por outra pessoa, dizemos amar aquela pessoa...mas, e aquela outra pessoa que você amou, já esqueceu dela? Impossível esquecer, você se acostuma com o não mais ter, com o não mais lembrar, com apenas o gostar, mas esquecer, ou deixar de amar é simplesmente inaceitável e até mesmo improvável. Tudo que é de verdade seu, volta, mas talvez já tenhamos mesmo sem perceber, o fato é que tudo aquilo permanece com a gente.
 O amor não acaba, muito menos a afinidade, o que acaba é a paixão, o que acaba é o desejo, porque esses dois sim são passageiros, se era amor, vai continuar sendo, independente do quanto estão longes, afastados ou se já está tudo arranjado.
 Você pode amar três mil pessoas, e mesmo assim você nunca vai amar ninguém igualmente, todos vão ter um amor diferente, é isso o que estou tentando dizendo aqui. O amor por si só já é verdadeiro, ele permanece, dura, fica para sempre sim. Mas é você, que com as ideologias atuais faz com que ele morra.
 Só mais uma pergunta, de vez em quando não bate uma nostalgia? Pense nisso...

07/02/2012

Você e eu, junção. Você e eu, silêncio.


Púpilas dilatadas,
Coração acelerado.
Memórias exacerbadas
E você do lado.

Peito quente e frio.
O silêncio esguio.
A falha no olhar
E o esganiçar no falar.

As peripécias nas falas
As carícias ilícitas.
A falta de ar no gargalhar
E pés bambos a trilhar.

O pairar das mãos
A junção dos suspiros
O silêncio no sorriso
E o amor no olhar.

03/02/2012

Me conte por aí.

 Eu esperava o momento certo para dizer aquele cara do balcão da padaria pra caprichar no meu pedido. Ele sempre entendia errado, fazia pouco caso do que eu dizia. Quando chegava em casa, só ouvia reclamações. Caroline nunca faz isso direito pra cá e pra lá. Minha irmã olhava para o espelho que ficava no fim do corredor da sala e imitava as reações da família. Eu ria dela toda vez que ela fazia isso. Mas apesar de tudo isso, porque era o que sempre acontecia, eles nunca me impediram de ir na padaria.
- Capricha mais dessa vez, moço. - eu pedia, com os olhos suplicantes. Mas toda vez ele sorria fininho e voltava com minha sacola sempre igual. A reclamação não parava nunca.
Um dia, eu estava voltando de umas das minhas caminhadas e passei em frente a padaria.
- Psiu. - alguém disse, e quando olhei, espantada, era o moço dos pães. 
- Não vai querer pães hoje, guria? - ele perguntou. E então espiei pelo meu óculos desajustado que seus olhos brilhavam de uma maneira estranha. 
- Não moço. Hoje não. - E fui, mas aí ele me seguiu. Andava com um violão na mão, as unhas bem cuidadas,  tinha uma tatuagem no antebraço que até aquele minuto eu nunca havia reparado.
- Então. Eu especulei lá pela cozinha, que eu não posso caprichar somente no seu. Ele disse que eu estaria privilegiando apenas uma das clientes. - dizendo isso, suspirou e começou a dedilhar seu violão. E eu sabia que som ele estava querendo tirar dali.
- Você gosta de Kid Abelha? - pergunto.
- Algumas músicas são bem interessantes. É, acho que gosto sim. - ele sorri. - Olha, vou caprichar nos seus pães da próxima vez.
- Ah, meu nome é Caroline e o seu?
- Marco, mas não conte a ninguém, nem meu nome, nem esse favor que irei fazer pra você. - e sai andando, ainda dedilhando seu violão.
 Nas semanas seguintes seus olhos pareciam brilhar ainda mais e as reclamações em casa pararam. E em todas as voltas das minhas caminhadas, ele costumava me seguir até uma rua próxima da avenida em que eu morava. A gente acabou se acostumando um com o outro. E acabamos andando de mãos dadas sem perceber. 
 Foi numa dessas minhas voltas que ele se inclinou um pouco pra mim.
 - Não vou fazer isso se a primeira coisa que você vai dizer depois é "não conte a ninguém". - soltei. Pois tudo que ele dizia parecia ser segredo. Tudo. Até seu nome ele pediu pra mim não contar a ninguém.
- Não se preocupe. Porque isso, eu vou querer espalhar aos quatro cantos. - e completou seu percurso.
 Até hoje Marco tem a mania de me pedir pra não contar nada a ninguém. Mas eu, eu ele sempre espalhou por aí...

17/01/2012

A pequena pétala que cai.

 Eu me agachava perto daquela árvore que ficava no meio da rua, esperando que o vento viesse e arrancasse algumas folhas só pra eu poder pegar algumas. Eu colecionava-as.
 Houve um tempo em que eu fiquei esperando o vento vir, mas ele não veio. Em outrora as folhas secaram e me vi presa em uma árvore nua e escassa. Mesmo assim, todo dia eu ia visitar a árvore, esperando, esperando... sempre fiz isso tão bem. Até que percebi que ao passo que eu esperava as folhas florescerem novamente, o passante das onze sempre me observava com seus olhos azuis. Ou seria verdes? Bom, não sei ao certo. Mas não me importei, cheguei a encará-lo e até a dá-lo bom dia.
 Eu sempre amei aquela árvore, desde pequena. Mas, em um dia chuvoso, eu não saíra de casa e já era tardezinha quando o sol começava a dar o ar de sua graça. Fui então ao encontro da minha árvore, tão "minha". E ela não estava mais lá "puf". Eu bem sei que eu chorei rios naquela noite e toda aquela semana inteira. Eu sabia, sabia bem que não voltaria a vê-la novamente, até hoje ainda guardo as folhas secas entre meus livros na estante.
 Aquele passante, todas as tardes vinha até minha calçada e deixava um par de flores amarelas, eu as despetelavas facilmente, era mais por passatempo do que qualquer outra coisa.
- O mundo é nosso guria. - ele sempre dizia isso quando saia de sua casa para o trabalho todas as manhãs, mas eu nunca soube se aquilo era dirigido a mim, juntamente com o sorriso que me davas.
 Eu tinha apenas treze anos quando aquele passante morreu. Fiquei sem o seu sorriso, sem as flores, sem minha árvore, sem minhas folhas. Eu achava que havia perdido tudo. Tudinho.
 Ai eu cresci. Acabei me agarrando a folhas de cadernos, a cheiro de livro, ao cheiro do café matutino, ao som de Alanis, ao meu quarto, a minha mina de moedas de um centavo, ao meu insistente surto de risos. A tudo isso. Mas ai, eu perdi tudo, tudinho de novo.
 Foi bem nesse tempo, que aquele guri com olhos azuis, parecidíssimo com aquele passante das onze, apareceu na minha vida. De repente, chegando, me arrancando, me levando. E como tudo que passou, eu também o perdi. Encontrei ele um dia desses com sua filhinha de três anos, linda.
 - O tempo não passa, ele corre. - Interferi um pouco na troca de olhares que dávamos.
 - É. E você Lorrane, ainda a mesma, ainda essa ruivinha teimosa. - ele falou com sua voz sussurrante. Eu sorri e fiquei encarando o belo par de olhos da menininha. E me vi neles, dentro deles, passei uma vida inteira neles. Suspirei com o cansaço das coisas que eu achava que havia perdido.
 - Sabe, Jhonny, eu estive devaneando esses dias sobre a minha vida, sobre a árvore que existia lá na rua de casa, sobre as flores. E você quer saber de uma coisa? Eu me conformei com todas as perdas que tive na vida, mas de você, meu bem, de você eu ainda tento me recuperar, porque há um pouco de mim em você inteiro. O que não é justo, já que você sumiu com peças minhas e me deixou assim, quase que tetraplégica. - calei-me rapidamente, procurando onde enfiar a cara, aquilo saiu rápido e espontaneamente, de uma maneira que eu não esperava.
 - Lorrane, sua teimosa. Você também tem partes minhas guria, você sabe disso. - foi ai que ele soltou a mão da filhinha dele e me deu um beijo daqueles de cinema. Foi tão demorado, que quando paramos e a procuramos, ela havia sumido. A gente passou a tarde inteira juntos e graças a Deus, encontramos a pequena Ariadne sã e salva.
 Ainda continuo devaneando e "nostalgicando"  - inventei essa palavra agora - , mas agora eu sei que posso dizer uma coisa, eu não perdi nada, nadinha, muito menos aquela minha árvore, pois todos eles, tudo, tudinho,permanecem comigo, assim como todos eles também me tem.
 Olha aí, é recíproco!

06/01/2012

O cotidiano de uma garota legal



O pulso parece querer martelar sozinho. Tamborilar os dedos. Os suspiros.
 Inquietantes. Deliquentes.
 Exageradamente.
 Os cílios pregam nas lágrimas. O muco de todo o corpo parece querer se expelir. Eca . Engole o choro, o sal dos olhos, a vermelhidão no nariz, a saliva na boca... Engole você pra si.
 Cansativo.
 Espelhos quebram.
 Pontapés intensos...
 Eu já disse. Engole. Engole. Limpa os olhos. Faz qualquer coisa. Roer unhas. Economizar água. Lavar os pratos. Olhar para os dentes. Um passo largo. Quebrar segundos.
 O impossível.
 Segure-se no beiral da janela do quarto andar. O vento conversa com seu cabelo. Levanta sua saia rodada.
 Vai menina, sorri. Sorri enquanto a garoa permanece. Volta pro começo. Se desmancha. Desmaia em si. Junta os cacos. Afoga-se nos seus cílios. Inunda-se por dentro.
 E explode...
 Bem assim ; e aquieta os teus pulsos.

05/01/2012

New year. The same shit.



 Deixo as armas no chão para começar a falar do ano que se passou e do ano que teima e tenta se iniciar. Não por querer metralhar alguns bocados de acontecimentos, mas para não atirar na pessoa que fez questão de inventar isso de "ano novo, vida nova", quem você acha que é? Alguém que simplesmente vai apagar tudo e recomeçar de novo, como se nada tivesse acontecido? Pois bem, eu digo uma coisa, não é assim, não mesmo.
 Dois mil e onze. Apenas um número, dentro de detalhes incríveis, de emoções, de conhecimento e de alguma forma descoberta ( ou seria melhor redescoberta? ) de si mesma ou da visão no espelho de forma diferente.
 Pessoalmente, foi um dos anos mais construtivos pra mim. Perdi, ganhei, perdoei, me magoei, sorri, ri, bebi, fiz milhares de besteiras, corri, cheguei em casa no outro dia de manhã com os lábios inchados, falei besteira, escrevi besteira, chorei, beijei, amei, deixei de lado coisas e como sempre, desisti de algo, de alguém, de alguma coisa. 
 Na minha concepção o verbo estar ou deixar ser, sempre fica comigo a qualquer momento. Claro que eu crio metas, situações, tenho sonhos e esperanças. Mas eu deixo as coisas seguirem seu curso, e para esse ano vou fazer a mesma coisa. Ou seja, eu espero muito mais de mim, mas se eu não conseguir, bem o jeito é deixar como estar, ou esperar.
 Conquistas? Bem, eu me conquistei. Pra esse ano? Como eu vou saber?
 Viver a vida é melhor do que ficar esperando que ela aconteça, pois ela simplesmente é, por si só.
 Eu continuo a mesma, com as mesmas lembranças, com lembranças mais novas, querendo mais. E que este ano, não seja só mais um número, mas a continuação do que já está sendo a minha vida.
 Novo ano, mesma merda, não, mesma vida de uma forma diferente... Eu acho.

11/12/2011

De alguma maneira, eu permaneço.


 Sempre falam que quando a gente cresce, a gente se ajeita. Eu ainda continuo esperando isso, fiz 22 recentemente, como bem sabe Rodrigo, mas às vezes eu me pergunto onde que o tempo ficou, porque eu não cheguei a vê-lo passar. E meu irmão deitado ao meu lado, segurando em meu ombro, me apoiando de alguma maneira nessa jornada, só me faz crer mais ainda que eu não me ajeitei.
 Eu olho para os ombros do Manoel dirigindo, estão rígidos, eu queria poder contornar seu pescoço e sussurrar em seu ouvido "eu estou bem", mas não posso, não agora enquanto malas estão no banco da frente e um punhado de cheques sem fundos no chão do carro. Me vejo balançando a cabeça de vezemquando e meu irmão abre os olhos verdes me encarando. Eu nem deveria te dar explicação alguma por tudo isso. Mas eu te amo Rodrigo, assim como amo a sensação que o chocolate faz em minha boca, ou como amo ver meu irmão sorrindo, ou da mesma maneira que me sinto quando Manoel me abraça apertado, ou quando eu vejo minha filhinha feliz com sua família adotiva. E me pergunto que é que eu fiz da vida pra merecer tanta coisa no peito.
 Mas de verdade, a vida não tem jeito, apronta com todo mundo e não esqueceu de mim. Meus pais não prestam, minha família simplesmente me ignora, tanto eu, como o Marquinhos, e Manoel, ah Manoel, com seus trinta e oito anos me resgatou desde pequena, me cuidando, me mantendo, mas eu nunca vou entender porque mudamos tanto de cidade, e eu nunca vou entender porque só você me marcou dessa maneira.
 Eu não sou de toda triste querido, eu já vivi e vi bastante, sofri, me mantive trancafiada por dentro, mas hoje eu sorrio, sabe por quê?
 Porquê a gente sempre arruma um tempo para ser feliz. E é por isso que te escrevo, te deixando um pedacinho de mim e prosseguindo, cuida bem da minha guria linda, e faça bom uso do termo pai. Você merece, ame sua família, sua vida, mas não esqueça, eu amo você.
 Acho que a viagem finalmente está acabando e quando eu chegar na cidade irei direto para os correios te enviar isso, mas caso Lívia veja primeiro e esteja lendo isso antes de você, eu peço que me desculpe e obrigada.
 Te vejo depois, quem sabe.

09/12/2011

Desilusão

 Deram-me um tapa na cara. Disseram-me que foi você que pagou pra aquele cara me fazer isso. É feio, você sabe que é feio homem bater em mulher.
 - Desilusões, amor. Desilusões. - alguém balbucia.
 Bufo, reviro os olhos e te procuro. Que merda cara, o copo de Smirnoff Ice ao meu lado não é nada comparado ao litro de wisky que você carrega na mochila que está nas tuas costas. Eu conheço bem teu cabelo. Desgrenhado. Percebo ao longe, vejo tuas mãos na cintura de outra garota. Idiota.
 - Quero ver se você tem atitude, se vai encarar. - sussurro. Amarro meu cabelo para o alto e empurro cada um que está ao meu alcance e vou ao seu encalço.
 - Você deve ser um cara covarde, não tem coragem de bater na minha cara e manda outra pessoa bater. Além do mais, você é um homem ou um menino? Metendo a mão numa garota dessas. - Olho pra garota de franja roxa. Ela arregala os olhos e os cerra rapidamente. Sorrio.
 - Eu não quero falar com você Layla. Você não merece nem a fumaça que sai do cigarro que trago. E além do mais, aquele cara fez isso na sua cara de graça. Ele tinha uns assuntos pendentes com você, ao que parece.
 - Engraçado. Eu penso, de que valeu tudo aquilo então, porque você não admite que me ama. Não tem coragem? Até parece que você tem algum pingo de atitude. - calo-me, percebendo a sua mão ao alto. Mirando meus olhos. Sorrio novamente.
 - Porra Layla. Que merda. Merda. Merda. Por que você faz isso comigo? - Ricardo solta a mão da garota e afaga minha bochecha, ainda se encontrava vermelha. - O que você quer de mim?
 - Eu só quero que você tenha coragem de me encarar, olhar nos meus olhos e dizer tudo. Não seja grosseiro, não seja covarde. Assuma. - eu digo, aproximando-me.
 - Então garota, conseguiu. Eu amo você. E não importa o que eu faça, não consigo marcar nenhum local que seja do teu corpo, preciso machucar meu coração de vez em quando. Feliz?
 - Não muito garoto, não muito. - admito, e o enlaço em um abraço. E penso "desilusão, amor, são desilusões."

23/11/2011

Ferir.


 13 de Setembro de 2012. Em algum lugar.

  Já se aproxima da data em que nossos corações ficaram tão colados. Eu penso Rick, se você seria capaz de repetir todas as palavras que foram ditas naquele dia. Seria o amor novamente esquentando você.
 Eu tive medo de chorar todas as noites que estive contigo, pois eu sabia que era temporário. Eu sabia que te ter era arriscado.
 O engraçado é que essa carta está sendo escrita só em pensamento, pois nem meus dedos eu mecho mais. Dói respirar. Você não veio nos últimos quatro meses, nenhuma vez. A tv está ligada. Eu odeio isso Rick. Odeio a ideia de ter que morrer. E sabe do que mais? Eu não tenho medo da morte, tenho medo por você.
 Os médicos costumam conversar baixinho quando estão próximos a mim, mas eu ainda não fiquei surda, e escuto muito bem quando dizem que me restam poucos dias e que é um milagre eu ter vivido todos esses meses... Eu queria voltar na praia, sentir a maresia em meus cabelos e o sal em minhas narinas. Eu queria ver você.
 O aparelho dispara ao meu lado toda vez que penso nisso. Todos ficam alertas, eu não. Eu já me acostumei. É rotina. Por que Rick, onde você se foi? Por que comigo? Logo eu, que nem posso mais perguntar nada a ninguém.
 Meu medo é você,parece que todos sabem, me olham com olhares tristonhos. Eu choro às vezes. Parece crise, mas é dor, física, mental, emocional. Eu preciso morrer.
 Me perdoe. Me esqueça. Ou então, sempre que alguém perguntar quem você mais amou, diga que foi eu.
(Mas sabe, eu penso que, se você não vem me visitar é porque já tem alguém. Se você não vem ver meus olhos castanhos é porque já se cansou disso. Ou talvez, porque você também chora, como eu.)
 E nesses últimos "momentos" , eu não paro de pensar em você.
 Três pontos...

02/11/2011

17 de Novembro, tanto tempo depois.


As palavras cruzadas no calendário que você me deu de presente, ainda estão lá, um pouco apagadas, mas ainda permanecem lá. Você dizia que voltaria, escreveu com todas as letras "eu volto". Teu beijo de despedida ainda está impregnado na minha garganta.
 Toda noite de insônia eu penso em te escrever , eu penso em te dizer que o tempo passou levando-te junta em partes, quando amanheço, não importa qual corpo esteja ao meu lado, é do teu sorriso que eu lembro, é ele que define como vai ser meu humor. Então eu me pergunto, que eu fiz pra merecer isso? Que eu fiz pra te perder entre as palavras mal escritas nas cartas trocadas? Que eu fiz pra você ter sumido assim, sem mim, me deixando?
 Jullie, teus olhos verdes me perseguem pela rua, teu riso me entorpece nas noites no bar, e a maneira como eu balanço a cabeça quando toco minha guitarra me lembra de você gritando quando eu bati no teu amigo. E como você beliscou meu pescoço quando entrou naquele ônibus, isso, isso... é único, não tem nada que me lembre disso.
 Eu ainda deito e fico lidando com o sudoku que você me deu de presente, juntamente com o calendário, eu só completei dois, porque todo esse raciocínio me dá dor de cabeça e eu nunca fui tão inteligente como você. Tem dias que eu escuto um carro buzinar na rua e corro pra ver se é você chegando. Sempre é um vizinho chato que esqueceu o alarme ligado, ou porque vai a praia. Nunca é você.
 O rádio permanece ligado no mesmo local que você deixou, e dia sim dia não passa aquela música, Trouble deve ser o nome dela. E eu me pergunto se a música, a letra dela, é você me deixando uma pista, me respondendo o porque de você ter ido.
 Volta. Volta. Eu te quero aqui. Não importa quantas almas conheci, a minha só se sente bem com a tua. Volta. Volta. Por favor. As palavras estão me corroendo, os lábios estão secos, estão famintos de você. Volta. Eu preciso de você. Eu preciso que você faça comigo o sudoku, que marque as datas no calendário, que deite comigo, que reclame do som alto, que derrube minha guitarra, que xingue os vizinhos por as buzinas.
 Por favor, volta. Eu ainda permaneço em ti.

20/10/2011

"Quem pensa muito se atormenta demais."

 Perdida. Iludida.

 Os pêlos da nuca se eriçam com um toque de lábios finos e frios. Ela sente a corrente sanguínea esquentar sua face... Mas algo se perdeu.
 Perderam-se palavras e verdades.

 Ela sabe que se esqueceu de abrir os olhos e de respirar. A pressão em seus ouvidos incomoda. Ela enche os pulmões de água. Ela sabe o que a espera.
 Escuridão.

 Um riso baixo entre os lábios juntos, mas ela sabia que não era por causa do contato. Ela sabia, mas também ria.

 Ela sente os pulmões arderem e por um momento se entrega a queda. Seria essa a resposta?
 Não resistir?
 Seus braços se movimentam suavemente entre as vibrações da água.

- Isso é sua culpa. Sabe tão bem que existe promessas que me fiz e que ainda não cumpri, mas, elas foram feitas para serem quebradas. - lábios se tocam, mãos e pulsos fortes.
 Fim.

 Não resistir.
 Os pulmões se encharcam de dúvidas e dores. A consciência se apaga. Uma batida ao fundo.
 Inerte.
 Seu corpo se perdia na escuridão, mas, de algum modo, ela ainda permanecia viva enquanto caia.

- Eu sempre amarei você.




* Frase do título de Augusto Cury.

17/10/2011

Precisão. Necessidade. Não querer. Desapegar-se.

 São dos seus olhos que eu lembro. Azuis, penetrantes. Uma buzina ensurdecedora e você me dizendo "caminhão." Eu te perdi naquele momento...
 Depois do acidente minha vida nunca mais foi a mesma. E você está de prova disso, você ficou do meu lado. O quão eu estava errôneo naqueles primeiros pensamentos, desconhecia todos estes mistérios que me tens apresentado ultimamente, uma vida diferente.
 Você toca o espelho sem o seu reflexo no exato momento em que rabisco essas palavras em um papel amarelado, eu sei que você irá lê-lo e se perguntará se você fez o certo ao permanecer comigo. Mas querida Lilian, eu me sinto amado agora, posso ajudar almas a seguirem seus caminhos, só que eu me pergunto "Que assunto inacabado você tem pra ainda permanecer aqui?"
 Eu perdi o teu cheiro no banco do carro, entre eu e a morte, eu perdi sua respiração quando teus olhos vidrados pararam e ficaram ali, minha perna presa ou o gotejar de sangue que escorria do meu braço não se comparava aquilo, eu te perdi. Eu perdi tua vontade imensa de mergulhar em todos os mares, ou a forma que se produzia pra qualquer festa em frente a um espelho, o mesmo em que você olha agora, com aquele olhar desolador. Eu queria teu abraço. E então eu me pergunto "Será que ainda vou viver mais que isso?"
 Tua presença, mesmo que não física, me lembram isso todo o dia, o acidente nos modificou de formas variadas. Eu preciso, você necessita, nós não queremos, mas é o correto. Desapegar-se, entregar-se. Seguir.
 Querida Lilian, hoje eu tenho um encontro com a doce Silvia do trabalho, ela não se compara a você, claro, mas eu posso viver e espero que você resolva o seu assunto inacabado. E desapegue-se desse estado no limbol, siga, me deixe seguir. Me deixe fazer o que mais sei agora, fazer com que todos que ficam, sigam.
 Eu amarei sempre você.
Com carinho, Julian.


07/10/2011

Tentando.

 Uma noite de verão qualquer.

  Despeço-me dos teus cabelos encaracolados, das noites em claro e dos afagos nas bochechas. Despeço-me das tuas lembranças em mim e de tudo que você é em mim... Mas nem tudo que acaba tem final, não é? Não é desse jeito que você escreve nas mensagens que me envia?
 Murilo, eu deveria estar na praia agora, enrolando a saia nos dedos, como de costume, no lual, mas eu estou aqui, sentada na varanda, vendo as nuvens voarem, escrevendo a ti um sinal para você seguir. Sem mim.
 As vidas seguem, a minha seguiu, mesmo que tenha doído no começo sem ti, eu consegui. Você faz ideia do quanto isso é difícil? Como eu te disse, na maioria das vezes só o amor não é suficiente. Existe outras coisas querido. E eu quero que você aprenda que, esses anos que se passaram foram o fim. Acabou.
 E desta vez despeço-me dá tua frenética onda de ciúmes que me entupiam as veias de raiva, despeço-me do  teu egocentrismo e da tua tirania. Mas além de tudo, despeço-me da parte em mim que ficou em ti.
 Só que no fim desta carta eu tenho que concordar contigo. Nosso fim ainda não chegou, só está no modo pause, por muito tempo.
 Viva bem, cuide bem, e retire-me da parte que atrapalha tua vida, assim como fiz. Assim como tento.



06/09/2011

Desde o começo já era fim

“- Vou te escrever carta e não mandar.
- Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
- Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
- Vou ver Saturno e me lembrar de você.
- Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
- O tempo não existe.
- O tempo existe, sim, e devora.”

      - CFA



 Olá querido ótario. Como vai a vida sem mim? Como vai a vida sem você?
 Eu queria te explicar uma coisa, aquilo que você chamava que eu tinha...como era mesmo? Ah, dependência. Eu queria poder dizer a você que, aquilo nem sequer existiu, talvez da tua parte, pois no momento em que eu parti, eu soube dos teus pedaços no chão da sala, presos em copos de vinho e naquele cigarro que eu tanto odiava.
 Você disse que não pertencia a ninguém, mas nem percebeu quando não conseguia dormir sem ouvir o meu boa noite. Nem percebeu que teus braços viviam se agarrando aos meus, como um vício, que eu gostava. Eu adorava, eu te amava. E o tempo passou...
 É de noite lá fora, chove forte e eu sinto o cheiro que o vento trás. Parece você na minha porta e o coração aperta.Dependência, isso é uma palavra feia sabia? Querido ótario, onde você está?
 Esta carta não vai chegar, não tem endereço para ir, não tem coração para entrar. Onde você está?
 Dependência, depender, depende, pende, de perder, argh. Eu perdi. Você sabe que perdi neste jogo, entre as cartas jogadas no tapete deste quarto está as que você me devolveu, como se isso fosse fazer alguma diferença. Nostalgia. Já era tudo aqui dentro do peito. A dor se esvaiu. Não depende de você, nunca dependi de você, você era meu ponto seguro nessa linha, você foi a pessoa que segurou meus braços para não cair de cara no chão na volta dos shows. Eu te amei por isso. E não te amo mais querido ótario.
 E isso se chama independência e o tempo corre para os dois.
 Adeus.

23/08/2011

I can't see you. I can't feel you. Not now, soon.




 Qualquer dia desses, numa tarde qualquer.

 Oi, como vai? O mesmo de sempre? Nem sei, não tenho como saber...
 Sabe, eu estava revirando minhas redes sociais. Olhei meu orkut velho, pensando em excluí-lo, fui ver meus depoimentos e encontrei um seu, que está lá até hoje. Eu não chorei. Eu virei o rosto e relembrei dos momentos passados no msn, das horas incontáveis te escutando. Aquele teu sotaque que eu amo. E te ver... por que, diabos, eu nunca te vi? Ah! Lembrei, você mora a quilômetros daqui. 
 Você disse que me esperaria, que não queria apenas uma amizade virtual, um amor incompleto. Mas você disse que me amava, apesar de tudo, que sonhava comigo, que sentia ciúmes de mim. Ainda sente?
 Você ainda consegue me sentir aí dentro do teu peito?  Eu ainda sonho aqui, acordada, deitada, no ônibus indo pro trabalho, eu ainda sonho em um dia te conhecer. Eu ainda sonho em sentir você.
 Você não sabe quantas marcas deixou em meu peito, não sabe quanta saudade ficou. Não sabe como é ruim te ver onlinne no msn e não ir falar com você, apenas por não ter assunto e não saber o que te dizer.Porque dói pensar que nós dois brigávamos, amávamos e sentíamos juntos. Os dois. 
 Você sumiu, eu sumi. Mas eu me lembro de uma data recente que você resolveu falar comigo e me dizer, que apesar de tudo, quando pensava em alguém, era em mim, e isso dá um nó na garganta, no peito, no coração. Eu ainda amo você. Eu ainda tenho saudade da tua voz. E, foda-se, eu ainda vou te conhecer.
 Mas esta carta não chegará nas suas mãos, mas teus olhos poderão ver. E teus lábios, eles abrirão um sorriso, disso eu sei. 
 É isso, e tenha um boa vida.

10/08/2011

Old


 Fotos antigas, guardadas, retiradas do peito. Que doem só de ver. "E se for a última vez que você me ver?" Uma fila, um corredor, ecos, você...
 Lembrar daquele acidente é difícil pra mim, ainda mais que você, com seu cigarro entre os dedos, entra na minha mente, toda vez, naquela parte. Uma batida. "E se essa for a última vez que você me ouve?" Sussurros, bipes, sono...
 Eu lembro que antes eu tinha visto uma arma apontada para minha cara, lágrimas nos olhos e mais um cigarro qualquer. Um carro buzinava ao longe, vozes alteradas no quintal, um flash, um tiro. " E se essa for a última vez que sente meu cheiro?"
 Eu até entenderia o motivo daquela arma, eu até entenderia as fotos guardadas, mas minha lembrança quebra, pedaços, gentes, beijos. "E se for a última vez que me sentes?"
 No corredor daquele lugar, onde uma fila se forma, alguém solta "Ainda temos provas contra ele." Um policial, minha garganta fecha. Prova contra quem, contra o quê? Eu quero perguntar. Mais os ecos insistem, passos alternados no fim do corredor, olhos cinzas. Eu sei a cor por tê-los visto-os por tanto tempo ao meu lado. "E se essa for a última vez que eu te digo eu te amo?"
 Você. VocÊ. VoCÊ. VOCÊ.VOCÊ. 
 "E se, e tantos e se's , eu já estou cansado de chegar ao pé do teu ouvido e te sussurrar perguntas sem respostas, estou cansado disso tudo. Essa arma não é pra você, é pra mim, só pra mim. E se essa for a última vez que eu existo?" Um tiro. Agora eu lembro. Lembro dos teus olhos, das tuas perguntas, dos teus sorrisos. "Eu morreria." E morri. Você, culpado. Eu, morta. Fotos guardadas em seu armário, fotos roubadas.
 "E se essa for sua última vez?" "Eu retornaria." Bipes...
 Eu retornei. "Ele não é culpado." Seis meses. Cabelos longos nas costas. Olhos avermelhados, verde obscuro. "Foi um acidente." 
 "O que você diria a ele agora se pudesse vê-lo?" Alguém pergunta. "E se você pudesse voltar no tempo, o que teria feito?"


 ...
 "Eu morreria,seria minha resposta."
 ...
 Não há provas, só fotos, vazias, antigas, lembranças quebradas, distantes. Mas eu lembro de você e do cigarro queimando entre seus dedos. Só você. "E se...esquece."