29/02/2012

Desencana

As pálpebras pesavam, era como se a espera fosse se imortalizar, o buraco na parede da sala dava para ver o outro lado da rua. Os dentes estavam sem ser escovados há dias. As roupas espalhadas, o calor consumindo, cabelo sujo, peças de baixo amarradas em lugares inapropriados. Então alguém bate a porta, parecia até impossível, alguém, no meio da noite, precisamente às dez da noite, bater aquela porta amarela no meio de uma rua deserta. Kimberly se empertigou no sofá e percebeu que estava nua. Sua preguiça era tanta que seus passos demoraram a chegar até suas peças de roupa.
- JÁ VAI. - Kimberly grita, denunciado sua "vida". Dá uma espiada pelo olho mágico. Veste-se rapidamente e abre a porta.
- Já não era sem tempo. Kimberly, só vim deixar algumas cartas que chegaram por engano na minha casa, estão endereçadas com seu nome. E, hum, trouxe um pouco de pizza pra você, caso queira. - Keira, era sua vizinha *bitch* , Kim percebeu o olhar de desdém que ela dava ao perceber a bagunça que estava a casa dela. - Bom, era isso. É...tenha uma boa noite.
 No momento em que fechou a porta, pôs-se a tirar as roupas novamente. Comeu um pedaço de pizza, mas largou-o logo em seguida. Eca, é de calabresa. Cheirou as cartas e percebeu que elas foram coladas recentemente. Keira havia espiado suas correspondências.
 Kimberly olha no espelho e percebe olheiras enormes, lábios ressequidos e algumas espinhas surgindo em sua testa. Suspira e volta para o sofá.

 Passaram-se dias desde aquela noite fatídica. Hoje, Kimberly come uma pizza ( de mussarela ) e debruçada sob as cobertas de sua cama, com os dentes escovados, cabelos limpos e um novo corte, ensaia sua fala para a conversa de amanhã... Thimoty vem para a cidade.

 As cartas foram novamente enviadas. As respostas foram esperadas. Os ensaios foram feitos... Mas o roteiro não saiu como queria...
- Kim, eu não recebi nenhuma carta sua. E, além do mais, eu me mudei... como poderia eu ter te respondido? - Kim é pega de surpresa, enfia sua cara em uma máscara imaginária e trepensa uma maneira de reverter a situação.
- Ora, mas assim Thimoty, independente disso, você poderia ter me enviado alguma carta, não sei, talvez dizendo como ia a vida, pois sei bem que meu endereço ainda permanece na sua agenda. Que, inclusive, é esta em cima da mesa.
- Kim... eu estou noivo. Você entende isso? Nosso romance, se é que posso chamar disso, acabou no momento em que fui embora. - ele suspira, olha em volta e pega as mãos de Kim nas suas. - Eu quero que seja feliz e que... não que me esqueça completamente, mas que me apague um pouco dos teus dias. Você precisa disso. - dizendo isso, levanta-se, contorna a mesa, dá um beijo no alto da testa de Kim e se vai.
 Às vezes, ensaiar o diálogo, o desenrolar, o desfecho e tudo mais não é uma boa. Nunca é.

 Talvez dez anos haviam se passado. Kim estava presa naquela casa de porta amarela, com sua vizinha chata, com um emprego que era a única escapatória da realidade e um namorado fudido.
 Numa tarde dessas, na volta do horário do almoço do trabalho, Kim esbarra em ombros conhecidos.
- Thimoty. - olhos turvos e escuros pararam em seus dedos... sem nenhum anel.
-Kimberly. Como você...
- Ainda espero resposta. - Sai sozinho as palavras sem comando. Kim está com as mãos sobre os lábios, prendendo tudo, os olhos esbugalhados.
- Acho que tua vida tá muito melhor sem a minha. Além do mais, a gente ainda se encontra por aí de novo. Estou de volta. - Estou de volta. Estou de volta. Estou de volta.
- Thim, não tem mais aquele buraco na sala. Talvez eu termine com meu namorado stupid e, e, aaaah, eu não sei. Só sei que te quero ainda.
- Kim... a gente conversa depois sobre o nós. - O beijo estalado na boca, fez com que ela acordasse um pouco. Um pouco pra vida... Ali estava sua resposta.
 Talvez os acasos sejam bem melhores que os planos. Talvez o tempo seja bem melhor que a insistência implicante. Talvez o amor verdadeiro seja bem melhor que o fascínio temporário. Talvez a eterna espera, seja a única coisa que sobra numa vida perdida. Talvez não... é.

4 deixaram-me mais motivos para sussurrar:

Elania disse...

EXPLICAÇÃO DA AUTORA.
Pois bem, é o seguinte. Em algumas partes no conto, simplesmente deixa algo vago, como por exemplo, porque ela fica nua, o que aconteceu de tão importante naquela noite após a chegada das correspondências... Tudo fica um pouco evasivo. Essa é a intenção, você que faz o que realmente quer com a imaginação. Você constrói a história para ambos, diz o que ocorreu nos anos, o que aconteceu antes, depois e entre...

Christian V. Louis disse...

Olá Elania.
Eu conheço há pouco tempo o projeto Bloinquês e o acho muito interessante para que conheçamos novos trabalhos, novos parceiros e trocarmos ideias com variados tipos de pessoas da blogosfera.
Gostei muito do seu conto, a explicação que deu é a de um verdadeiro autor. É muito importante o autor deixar livre a imaginação do leitor. Pessoas por vezes acreditam que o valor de uma obra está nas descrições muito detalhadas. É inegável que algumas descrições sejam fundamentais, no entanto, eu vejo como arrogância o autor "entregar" tudo para o leitor, sem dar permissão para que o mesmo possa "viver" a história por si só em sua imaginação. Eu digo até mesmo que isto é arrogância.
Seu conto tem um ótimo potencial para estar entre os melhores desta edição. Desejo sorte.
É a minha primeira visita aqui e tive uma ótima impressão.

http://escritoslisergicos.blogspot.com

Pedro Menuchelli disse...

Gostei muito dessa ideia de aplicar a minha imaginação a partes que estão em aberto. Isso faz o leitor participar mais do texto. Creio eu que é dificil. Muito. Mas você o fez da melhor maneira..

Um grande beijo!

Fran Carneiro disse...

Achei um texto bem feito e, diga-se de passagem, adoro quando posso imaginar a cena e tudo mais. Então, parabéns!