17/01/2012

A pequena pétala que cai.

 Eu me agachava perto daquela árvore que ficava no meio da rua, esperando que o vento viesse e arrancasse algumas folhas só pra eu poder pegar algumas. Eu colecionava-as.
 Houve um tempo em que eu fiquei esperando o vento vir, mas ele não veio. Em outrora as folhas secaram e me vi presa em uma árvore nua e escassa. Mesmo assim, todo dia eu ia visitar a árvore, esperando, esperando... sempre fiz isso tão bem. Até que percebi que ao passo que eu esperava as folhas florescerem novamente, o passante das onze sempre me observava com seus olhos azuis. Ou seria verdes? Bom, não sei ao certo. Mas não me importei, cheguei a encará-lo e até a dá-lo bom dia.
 Eu sempre amei aquela árvore, desde pequena. Mas, em um dia chuvoso, eu não saíra de casa e já era tardezinha quando o sol começava a dar o ar de sua graça. Fui então ao encontro da minha árvore, tão "minha". E ela não estava mais lá "puf". Eu bem sei que eu chorei rios naquela noite e toda aquela semana inteira. Eu sabia, sabia bem que não voltaria a vê-la novamente, até hoje ainda guardo as folhas secas entre meus livros na estante.
 Aquele passante, todas as tardes vinha até minha calçada e deixava um par de flores amarelas, eu as despetelavas facilmente, era mais por passatempo do que qualquer outra coisa.
- O mundo é nosso guria. - ele sempre dizia isso quando saia de sua casa para o trabalho todas as manhãs, mas eu nunca soube se aquilo era dirigido a mim, juntamente com o sorriso que me davas.
 Eu tinha apenas treze anos quando aquele passante morreu. Fiquei sem o seu sorriso, sem as flores, sem minha árvore, sem minhas folhas. Eu achava que havia perdido tudo. Tudinho.
 Ai eu cresci. Acabei me agarrando a folhas de cadernos, a cheiro de livro, ao cheiro do café matutino, ao som de Alanis, ao meu quarto, a minha mina de moedas de um centavo, ao meu insistente surto de risos. A tudo isso. Mas ai, eu perdi tudo, tudinho de novo.
 Foi bem nesse tempo, que aquele guri com olhos azuis, parecidíssimo com aquele passante das onze, apareceu na minha vida. De repente, chegando, me arrancando, me levando. E como tudo que passou, eu também o perdi. Encontrei ele um dia desses com sua filhinha de três anos, linda.
 - O tempo não passa, ele corre. - Interferi um pouco na troca de olhares que dávamos.
 - É. E você Lorrane, ainda a mesma, ainda essa ruivinha teimosa. - ele falou com sua voz sussurrante. Eu sorri e fiquei encarando o belo par de olhos da menininha. E me vi neles, dentro deles, passei uma vida inteira neles. Suspirei com o cansaço das coisas que eu achava que havia perdido.
 - Sabe, Jhonny, eu estive devaneando esses dias sobre a minha vida, sobre a árvore que existia lá na rua de casa, sobre as flores. E você quer saber de uma coisa? Eu me conformei com todas as perdas que tive na vida, mas de você, meu bem, de você eu ainda tento me recuperar, porque há um pouco de mim em você inteiro. O que não é justo, já que você sumiu com peças minhas e me deixou assim, quase que tetraplégica. - calei-me rapidamente, procurando onde enfiar a cara, aquilo saiu rápido e espontaneamente, de uma maneira que eu não esperava.
 - Lorrane, sua teimosa. Você também tem partes minhas guria, você sabe disso. - foi ai que ele soltou a mão da filhinha dele e me deu um beijo daqueles de cinema. Foi tão demorado, que quando paramos e a procuramos, ela havia sumido. A gente passou a tarde inteira juntos e graças a Deus, encontramos a pequena Ariadne sã e salva.
 Ainda continuo devaneando e "nostalgicando"  - inventei essa palavra agora - , mas agora eu sei que posso dizer uma coisa, eu não perdi nada, nadinha, muito menos aquela minha árvore, pois todos eles, tudo, tudinho,permanecem comigo, assim como todos eles também me tem.
 Olha aí, é recíproco!

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