08/11/2010

Apenas o seu respirar.

 Alice estava em seu carro, como de costume. Eu a observava do meu. Ela segurava um livro negro, com título ilegível. Seus olhos percebem que estou observando-a e desvio o olhar. Ela se sente ofendida quando é observada, é o que diz pra todos, mas não é curiosidade, é admiração. Limpo a garganta e saio do carro, vou ao seu encontro.Sento-me no capô de seu carro e ela me olha de um jeito julgador. Como se já soubesse o que eu fazia ali.
- Como você consegue? - pergunto e encaro o céu azulado, com o sol forte queimando-me a pele. Ela não responde, não se incomoda com minha presença e calmamente passa as folhas do livro, fazendo um barulhinho agradável.
- Às vezes, não tocar no assunto é a melhor coisa a fazer . - ela diz com sua voz doce e rouca. Ainda lia o pequeno livro com capa negra.
- Que livro é esse? - pergunto. Tentando mudar um pouco o foco da conversa.
- Talvez uma história de amor . É cansativo, mas a narrativa é bem legal. - ela se empolga e percebo um leve levantar de suas bochechas.
- Deve ser legal. - divago.
- Você gosta de ler? - ela pergunta e seus olhos verdes me examinam por um minuto e então ela me mostra um meio sorriso, fazendo aparecer suas covinhas tão lindas. Eu também mostro um levantar de lábios sutil.
- Não muito. - admito. E volto a olhar o céu que aos poucos as nuvens tomavam conta.
- Deveria ler. Acho que você se empolgaria nisso. É, tipo, um refúgio, pra tudo, pro mundo. Você vive outra coisa completamente diferente. Esquece dos problemas. - ela diz e continua a falar, encaro seus cabelos ondulados, que o vento não parava de balançar, um mel intenso, que fazia meus olhos brilharem.
- Eu sinto muito. - eu digo, calando-a.
- Ah. - ela recua um passo. - Tudo bem. Qual seu nome? 
- Lucas. - digo, saindo de cima de seu carro. Ela era um pouco mais baixa que eu e tinha que levantar os olhos para me encarar.
- Bonito nome. Prazer em conhecê-lo. - estende-me a mão, a aperto. Era tão quente. Estremeço.
- Boa tarde Alice. - me despeço.
- Ei. - ela segura o capuz do meu casaco. - Você... é, não vai sair assim. - olho para ela, confuso. - É que, eu só quero que entenda que não foi minha culpa. Você sabe, não foi. - ela se explica atrapalhadamente.
- Não estou julgando-a. Só disse que sinto muito. Foi um acidente, não é sua culpa ela ter morrido. - eu digo,  silenciando-a. Ela baixa os olhos e percebo uma lágrima escorrer em sua bochecha.
- Você a amava. - me espanto.
-Sim. Não. Quer dizer, ela era só minha amiga, sinto falta dela, mas não estou mortalmente triste. Isso é o ciclo da vida. - falo sem nenhum pudor. 
- Obrigada. Achava que você teria sido o que eu mais tinha ferido com essa perda, mas percebo que, eu estou triste,você também está, mas a vida segue. Eu devia seguir, não é? - outra vez ela continua a falar, e as lágrimas escorrem por seu rosto agora exposto ao sol. Eu me seguro para não acalmá-la.
- Boa sorte nessa sua nova caminhada. - digo, me dirigindo ao carro. Ela segura minha mão, e beija de leve minha face.
- Obrigada. - ela diz e corre ao seu carro, já voltando ao seu livro. Eu só queria poder dizer que a minha maior preocupação foi o medo de perdê-la, sem nem ao menos tê-la conhecido. Sorri. É, eu ainda teria muito tempo...

Ed. Conto/história. :*
(Nota:8,26)

1 deixaram-me mais motivos para sussurrar:

Italo Stauffenberg disse...

ótimo conto. sorte em sua participação! Obrigado por passar no meu canto reservado. Forte abraço

http://manuscritoperdido.blogspot.com